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A trajetória de Marisa Virginia Formolo Dalla Vecchia, 79 anos, primeira vice-prefeita e prefeita em exercício de Caxias do Sul e a primeira mulher eleita deputada estadual por Caxias na Serra Gaúcha, está prestes a ser reconhecida pela Câmara Municipal com o título de Cidadã Emérita de Caxias do Sul. Nesta quarta-feira (04/11), passou em primeira discussão o projeto de decreto legislativo (PDL 23/2026) que discorre sobre a honraria e foi proposto pelo vereador Lucas Caregnato/PT, sendo subscrito por outros sete parlamentares. O texto retornará para o plenário para segunda discussão e votação final.
O título de Cidadão Emérito é concedido pelo Parlamento a pessoas que nascem em Caxias do Sul com o propósito de reconhecer o trabalho que desenvolvem pela cidade e pela população local.
No PDL 23/2026, os autores realçam as relevantes contribuições de Marisa Formolo para o desenvolvimento de Caxias do Sul, considerando seu percurso na educação, pesquisa e vida pública, marcada pelo pioneirismo, coragem e compromisso com a transformação da sociedade. Segundo os parlamentares, é um exemplo de quem fez da liderança e do compromisso uma forma de transformar e construir novos horizontes.
“Uma mulher que cresceu comprometida com a ciência, com o estudo, com o conhecimento, com as lutas sociais, com a militância da igreja católica e com as políticas inclusivas a serviço de quem mais precisa, constituindo o sentido de sua vida e da existência de todos os que, com ela, partilham sua trajetória, sem perder de vista a beleza e a poesia da vida rural. Sempre fez e faz questão de agradecer todas as pessoas com quem conviveu e convive e que a tornaram o que é. Por isso, costuma dizer que é um pouco de todos e todas com quem conviveu e convive. Marisa representa tantas pessoas, especialmente as mulheres, que fizeram e são parte de sua história pessoal e coletiva em cada fase de seu momento particular e social”, destacam Caregnato e os demais autores.
Além do parlamentar petista, subscrevem o projeto os vereadores Zé Dambros/PSB, Andressa Campanher Marques/PCdoB, José de Abreu/PDT (Jack), Cláudio Libardi/PCdoB, Andressa Mallmann Bassani/PDT, Estela Balardin/PT e Rose Frigeri/PT.
SAIBA MAIS SOBRE MARISA FORMOLO, COMFORME TEXTO DO PDL 23/2026:
- Marisa Formolo Dalla Vecchia nasceu na colônia e já quis, com seis anos, aprender a ler e a escrever, o que mostra que a busca pelo conhecimento e pela educação é uma das suas marcas e continuou na formação encontrada na ciência e no saber popular, quer seja no Brasil, na América Latina e em outros lugares do mundo. Mantém a disposição de crer e agir na força da família enquanto um lugar de amigos e amigas, de acolhimento e aconchego, um espaço de desafios para desenvolver as capacidades de cada um.
- Fez política na política estudantil, na juventude estudantil católica, na juventude universitária católica, nos fóruns de organização de classe, quer seja na universidade, quer seja em outros segmentos da sociedade civil tais como a luta da UCS, da UERGS e da UFRGS da Serra.
- Precisou firmeza e solidariedade coletiva em sua profissão docente e na sua construção e reconhecimento em mandatos públicos. Entre os pioneirismos: primeira mulher professora numa escola exclusivamente masculina (La Salle), primeira coordenadora de pesquisas de um Programa de Pesquisa, primeira pró-reitora de Pesquisa, Pós-Graduação e Extensão da Universidade de Caxias do Sul (UCS), primeira vice-prefeita eleita e prefeita em exercício por mais de quatro meses com Pepe Vargas/PT, primeira deputada estadual eleita por Caxias do Sul, e primeira Secretaria Geral da Assembleia Legislativa.
- Doutora em Educação, Cultura e Humanidade pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS, 2020-2021), Marisa é pesquisadora, assessora educativa em projetos e pastorais sociais, e aposentada na docência e em mandatos públicos.
- Criou e coordena o Fórum de Entidades, Movimentos e Pastoral Social e hoje na luta pela Universidade Federal na Serra; o Centro de Estudos, Pesquisa e Direitos Humanos, trabalhando com a Universidade de Caxias do Sul pela implantação de um observatório de Direitos Humanos; e a Pastoral da Partilha: Cáritas na Igreja Nossa Senhora de Lourdes, que é a sua Paróquia e também da família.
- Além de pesquisadora, é mãe e avó que cresceu em uma família de quatro irmãos e três irmãs, rodeada de afetos e cuidados. Viveu por 11 anos na colônia, trabalhou como técnica em contabilidade e docente na UCS e rede estadual por 25 anos. Atuou em mandatos em órgãos públicos por 20 anos como vice-prefeita, prefeita em exercício e deputada estadual. Militou na área política estudantil, na área profissional e na Ação Católica e pastorais sociais por mais de 60 anos.
- Esta trajetória teve um começo: a infância, em meio aos horizontes da região de Nossa Senhora da Rocca. Desde pequena, Marisa fazia muitas perguntas a todos e o seu apelido de criança era “Zé Perguntinha”. Era preciso indagar, questionar, estudar e estar atenta a cada lugar na colônia, que também a estruturou, interiormente, na luta, nas conquistas e de direitos. Essa formação foi se fazendo na família, na comunidade, na escola e na igreja.
- Na adolescência, tomou consciência de seu compromisso cristão e continuou aperfeiçoando-o em todas as fases da vida.
Primeiros passos
- Nascida em 9 de novembro de 1946, na comunidade de Nossa Senhora da Rocca, na 6ª Légua, em Caxias do Sul/RS, Marisa é filha de Thereza Vergani e Laurindo Formolo. Aprendeu muito ao lado dos seis irmãos: Celestina, Aldina, Armando, Velocino (in memoriam), Valduíno e Jacir.
- Em 1970, casou-se com Vilson Pascoal Dalla Vecchia, com quem construiu uma família composta por três filhos — Giovana (casada com Pablo), Caroline (casada com Eduardo) e Thiago (casado com Yael) — e duas netas, Manoela e Verônica.
- A trajetória escolar teve início a poucos metros de sua casa. Estudou o ensino primário na Escola Adelino Sassi. Antes de terminar o ginásio, começou a atuar no grêmio estudantil e na Juventude Estudantil Católica (JEC). O ginásio cursou no Orfanato Santa Theresinha e, posteriormente, concluiu o Ensino Médio e a formação em Magistério no Colégio Madre Imilda, além do curso Técnico em Contabilidade do Colégio São Carlos.
- Pela Universidade de Caxias do Sul (UCS), graduou-se na Licenciatura em Filosofia (1968) e Licenciatura em Pedagogia com habilitação em Orientação Educacional, em 1971. Manteve um forte engajamento estudantil: foi criadora do jornal “Philos”, presidente do Diretório Acadêmico (DA) Pio XII e integrou o Conselho de Presidentes dos Diretórios Acadêmicos, movimento que impulsionou a criação e a eleição do Diretório Central dos Estudantes (DCE).
- Com o golpe militar em 1964, as indagações de vida aumentaram. Na graduação, fortaleceu a presença, em plena ditadura, na Juventude Universitária Católica (JUC), na década de 1960, e recebeu o certificado de militância dado por Dom Benedito Zorzi, reconhecimento à atuação na Igreja Católica no enfrentamento ao regime militar. Dando continuidade à sua qualificação acadêmica, especializou-se em Metodologia de Pesquisa (1987), obteve o título de Mestre em Planejamento Educacional pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) em 1978 e concluiu o Doutorado em Educação e Cultura pela mesma instituição em 2022.
A docência
- Com expressiva atuação no magistério, Marisa, em 1967, foi a primeira professora mulher do Colégio La Salle — até então uma instituição exclusivamente masculina. A seguir o Colégio Carmo também se tornou uma escola mista. No ano seguinte, atuou como professora de Ciências e orientadora educacional no Ginásio Orientado para o Trabalho, atual Colégio Imigrante.
- Entre 1970 e 1995, integrou o corpo docente da UCS, ministrando diversas disciplinas. Participou da fundação da Associação de Docentes da UCS (ADUCS) e conduziu pesquisas anuais sobre as dinâmicas sociais e violência contra as mulheres, e desempenhou papéis decisivos na gestão universitária. Também representou o MEC no Conselho Diretor da Fundação Universidade de Caxias do Sul (FUCS).
- Entre as obras publicadas: “Retratos de Um Saber: 100 anos de história da Rede Municipal de Ensino em Caxias do Sul”, em parceria com Vania Herédia e Felisbela Ramos; e “Por que Somos Poucas? Mulheres eleitas a mandatos públicos”. Também organizou “O Acendedor de Esperanças - Paulo Freire em Caxias do Sul em 1984”.
- Sua atuação social tem raízes na defesa dos direitos humanos e na organização comunitária. Marisa integrou a equipe de fundadores do Centro de Estudos Pesquisa e Direitos Humanos e, posteriormente, tornou-se dirigente do Movimento Nacional dos Direitos Humanos.
- Em 1993, representou o Brasil na Conferência Mundial dos Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU), realizada em Viena, na Áustria. Desse modo, ampliou a atuação em iniciativas de defesa da cidadania, dos direitos das mulheres e da agroecologia.
Atuação eletiva
- Em 1996, após sua aposentadoria, implementou, junto ao Instituto Federal em Bento Gonçalves, a criação do primeiro curso superior em Enologia do Brasil. No mesmo ano, licenciou-se das atividades acadêmicas para concorrer às eleições municipais, sendo eleita vice-prefeita na chapa de Pepe Vargas/PT.
- Durante a gestão 1997–2000, assumiu a Secretaria Geral de Governo, a Secretaria Municipal da Educação, além de exercer o cargo de prefeita em exercício em diversas ocasiões. Substituiu o Prefeito licenciado em 2000 (de junho a novembro) e entregou o cargo para Pepe Vargas, em 2001.
- A gestão pública e as políticas voltadas à qualidade de vida são outros pontos importantes na trajetória de vida de Marisa Formolo. Entre os reconhecimentos recebidos está a contribuição para a gestão municipal que conquistou, em 1999, o prêmio de Melhor Merenda Escolar do Brasil. De 2002 a 2004, foi secretária municipal de Segurança Alimentar e Inclusão Social, implantou o Restaurante Popular, Banco de Alimentos, as Cozinhas Comunitárias e o primeiro CONSEA-RS.
- Em 2001, assumiu o cargo de diretora da Companhia de Desenvolvimento de Caxias do Sul (CODECA). Com a assessoria da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Marisa elaborou um plano estratégico para fazer a Codeca uma empresa regional/ambiental. Em 2004, foi a primeira mulher candidata a Prefeita de Caxias do Sul, tendo alcançado o primeiro lugar no primeiro turno do pleito.
- Em 2005, foi professora em Direitos Humanos na Faculdade da Serra Gaúcha (FSG). Em 2006, consagrou-se como a primeira mulher eleita deputada estadual por Caxias do Sul, cumprindo dois mandatos na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul. Foi também em 2006 que recebeu da Câmara Municipal de Caxias do Sul o título de Mulher Cidadã, na categoria “Política”.
- Como deputada estadual, de 2006 a 2009, presidiu a Comissão de Educação, Cultura, Desporto, Ciência e Tecnologia; e foi vice-presidente da Comissão de Cidadania e Direitos Humanos. Participou da CPI contra a prorrogação dos pedágios da Serra Gaúcha e da Comissão Especial de Parques Tecnológicos. Criou, em seu mandato, o Prêmio Anual ao Dia Internacional da Mulher de 2007 e 2014.
- De 2010-2014 (2º mandato), presidiu a Comissão de Saúde e Meio Ambiente, integrou a Comissão do Mercosul e Assuntos Internacionais e presidiu a Comissão Especial de Ensino Profissionalizante. Em 2014, tornou-se a primeira mulher secretária da Mesa Diretora, em 179 anos do Parlamento Gaúcho e foi, assim, a primeira deputada a dar posse a um governador em 2012.
Doutorado
- A busca por mais conhecimentos e diferentes saberes nunca cessou na vida de Marisa, e seguiu envolvida com pesquisa e produções científicas. Em 2021, tornou-se doutora em Educação pela UFRGS ao defender a tese “Educadoras eleitas para mandatos públicos em Caxias do Sul: trajetórias de reconhecimento.” A pesquisa resultou na publicação do livro “Por que Somos Poucas? Mulheres eleitas a mandatos públicos” (2023). Ao longo de toda a sua vida pública e comunitária, Marisa Formolo lutou pela consolidação da escola pública e gratuita de qualidade. Liderou frentes permanentes pela instalação de um campus da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (com mobilizações registradas em 1971, 1982, 1986, 2003 e 2023).
- Como coordenadora do Centro de Estudos, Pesquisa e Direitos Humanos, propôs e acompanhou a implantação do Observatório em Direitos Humanos, junto à UCS, aprovado pelo Ministério dos Direitos Humanos. Atualmente, coordena o Fórum das Entidades, Movimentos e Pastorais Sociais hoje na defesa da UFRGS. É, hoje, coordenadora pedagógica do projeto Criança Saudável, Ciranda Feliz, numa parceria entre Pastoral da Criança/FIOCRUZ/FIOTEC.
- Coordena, ainda, a Pastoral da Partilha na comunidade Nossa Senhora de Lourdes e o Centro de Estudos, Pesquisa e Direitos Humanos de Caxias do Sul.