VEREADOR RAFAEL BUENO (PDT): Presidente, colegas vereadores, vereadoras, depois de muitas falas aqui na Câmara, nas últimas semanas, principalmente do vereador Xuxa, ontem do vereador Velocino Uez, matéria do Jornal Pioneiro, eu me obrigo a fazer aqui uma fala de forma que a gente possa fazer uma reflexão, em Caxias, mas também uma homenagem. Uma homenagem a um jornalista que está aqui conosco no plenário desde as 8h30 da manhã, o Joao Pulita... (Manifestação fora do microfone) o Guilherme Pulita, só para ver se estava atenta, vereadora. O Guilherme Pulita que há 20 anos, exatamente 20 anos atrás, após um feriado de Páscoa, de Tiradentes, ele sentiu na pele o que as pessoas em situação de rua passam, há 20 anos atrás. Quem quiser... depois eu vou compartilhar esta matéria no grupo dos vereadores. Então no mês de 12 de maio de 2003 foi publicado essa matéria, mas ele viveu essa situação na terça-feira do dia 22 de abril até o dia 24 de abril. Foram três dias peregrinando nas ruas centrais em alguns bairros da nossa cidade. O João Pulita está aqui conosco. O Guilherme Pulita. Desculpa. Mas a página inicial aqui, Vida da Rua. “Eu, um João Ninguém”, ele retrata a vida de centenas de pessoas que vivem nessa situação. E o tema tem se agravado a cada dia, de 20 anos para cá. A pobreza aumentou, as necessidades também. A rede de apoio ao invés de diminuir cada vez parece que está mais distante dessa população. Reformas trabalhistas que empurraram a pessoa também para a pobreza. Reforma da Previdência da mesma forma. O custo de vida elevado. Então o Pulita começa a matéria dizendo o seguinte, que o seu patrimônio totalizava naquele momento um conjunto de calça, camisa, blusão, jaqueta estropiados, um cobertor cinza do tipo cortado, muito usado em mudanças, e R$ 10. Essa é a realidade de muitas dessas pessoas. Foram 55 horas ininterruptas, entre a manhã de dia 22 até o dia 24. Começou o seu dia lá na rodoviária, onde uma senhora Maria, estendeu a mão para ele, deu uma esmola de R$ 5, um alimento, mas, no outro momento, o segurança disse: “Não, aqui nós não podemos aceitar pessoas desse tipo”. Já meio que fui escorraçado de lá. Foi a maior esmola que ele recebeu neste período de R$ 5. Peregrinou pela rodoviária, esteve em diversos lugares, em padarias, no barbeiro. O barbeiro foi o que mais me chamou a atenção, Pulita. Eu estava na beira da praia lendo essa matéria, eu chorava. O barbeiro, ele tinha apenas, e eu vou ler aqui a matéria:
- Oi! Quanto custa para barba e cabelo? Perguntei ao profissional que atendia um cliente.
- Tudo fica por R$ 10. Dinheiro que não possuía, mas, naquela altura, o Guilherme perguntou:
- Mas nem para Guilherme tem desconto? Porque o Guilherme era o barbeiro, o nome do barbeiro.
- Sou de Lagoa Vermelha e não tenho dinheiro. Apelei. O barbeiro Guilherme respondeu:
- Senta aí que vamos dar um jeito. O homem que cortava a barba levantou da cadeira, pagou pelo serviço e foi embora. Guilherme limpou e arrumou o seu equipamento enquanto me convidava para sentar na cadeira. Reforcei que não tinha dinheiro e, como se não tivesse ouvido, o barbeiro questionou-me qual o número da máquina para raspar a cabeça. O rádio sintonizado numa estação evangélica transmitia mensagem de um pastor e Guilherme começou a contar a sua história, sua história de vida. O profissional cortou meu cabelo, lavou a minha cabeça e raspou a minha barba. Durante todo o tempo falou-me sobre as atitudes de Jesus. Ao final do corte, perguntei quanto custou. E ele disse:
- Nada, meu amigo! Eu retirei R$ 2 do bolso e entreguei a Guilherme. Ele olhou e me devolveu uma das notas. Emocionado, estendia novamente a cédula amaçada e disse para ele: “Dá no ofertório da igreja”.
(Texto fornecido pelo orador.)
Então essa história emocionante de doações, de busca de uma refeição, lugares que ele passou, e aqui eu faço um relato da praça. A praça, passagem para a maioria, é para muitos um lar ou uma extensão dele. Crianças, índias com barriga d'água circulam com roupas sujas e ranho escorrendo enquanto oferecem canetas enfeitadas ao que passam. Vendedores comercializam sabonetes e pomadas com propriedades ditas terapêuticas e milagrosas. Prostitutas chegam por volta das 10 horas e esperam nos bancos. Muitos, dos cerca dos 12 alcoolistas que passam os dias entre cigarros baratos e garrafas de cachaça ou álcool de cozinha, dormem nos passeios públicos. O que tem de diferente essa matéria de 20 anos atrás para hoje? Continua a mesma situação. A dificuldade de procurar uma cama para dormir, se refugiar. Aí, o Pulita continua, e aqui eu faço uma fala dele quando ele procurou as igrejas. Ele procurou albergue, procurou o Postão para ver o atendimento das pessoas em situação de rua. E aqui eu faço uma fala, eu sou católico, mas é bom a gente ver, vereador Velocino Uez...
Aqueles que ensinam a gente a dividir o pão.
Muitas vezes não fazem como exemplo do barbeiro, de forma anônima, mandou ele sentar, cortar o cabelo e pregar as palavras de Jesus. Também visitei algumas igrejas.
No bispado, onde fui na manhã de quarta-feira, a mulher que me recebeu falou comigo pela vidraça. Disse que não tinha nada para dar, nem mesmo copo de leite que foi pedido. Os padres estariam no período de oração naquele momento.
No dia seguinte fui a Igreja Universal do Reino de Deus, na Rua Sinimbu, cheguei no final do culto quando obreiros e auxiliares passavam sacos de veludo para recolher donativos. O pastor, de nome William, escutou a minha história e disse que a igreja passava por dificuldades e que não poderia me ajudar com uma passagem para Lagoa Vermelha, mas deu-me uma benção com a imposição das mãos e um pedaço de bolo.
Na Sociedade Espírita Abrigo da Esperança, no Bairro Cristo Redentor, o senhor que me recebeu ouviu pacientemente, pedi por um pouco de comida, ele mandou entrar numa sala com mais duas mulheres, sentei no canto de uma pequena peça e fiquei esperando: “Mentalizem todos seus desejos”, sugeriu o senhor. Em menos de cinco minutos retornou e disse para sairmos da sala, me esperava com pão de sanduíche, levou-me até a porta onde por alguns instantes falou sobre a doutrina. Então foi passado por diversos lugares, me surpreendeu que o bispado não foi uma acolhida, que a praça central onde essas pessoas passam seus dias.
VEREADOR ELISANDRO FIUZA (REPUBLICANOS): Um aparte quando possível.
VEREADOR RAFAEL BUENO (PDT): Já lhe concedo, vereador. O Pulita, no final, ele diz o seguinte, uma observação que ele fez:
Exploração da tristeza: A certeza de que em três dias tudo iria acabar me confortava. Em muitos momentos, principalmente à noite, quando recém planejava produzir esse tipo de reportagem tentava imaginar o que se passa no coração das pessoas que vivem na rua. A alegria aparente esconde a depressão, a falta de perspectiva, a amargura e o rancor. Majoritariamente mendigos brigaram com suas famílias, foram abandonados ou expulsos de casa.
VEREADORA ESTELA BALARDIN (PT): Declaração de Líder para a bancada do PT.
VEREADOR RAFAEL BUENO (PDT):
Histórias de tristeza que se arrastaram por muito tempo até explodir. A rua acolhe a todos, não vê diferença entre seus habitantes, ao contrário de parte da sociedade. Se está na rua, sem lar e de estômago vazio, é favelado, marginal, vagabundo e drogado. Mas quantos se perguntam que condições foram oferecidas a sua família? Qual a história daquela pessoa? A quem detectar hipocrisia nesse sentido de concessão, meu conselho é simples, abdiquem do conforto de suas vidas por um dia, invertam as posições com quem lhe estende a mão pedindo um pedaço de pão.
Guilherme Pulita.
(Texto fornecido pelo orador)
Eu, vereador, eu vou terminar meu tempo, mas eu quero... Essa reflexão que continua atual e a gente discute, vereador Velocino Uez, o senhor diz: “Ah, eu não posso mais passear com o cachorro na rua.” O outro tem medo de insegurança. Mas colegas vereadores, eu só quero trazer um dado. Aqui em Caxias do Sul nós temos 744 pessoas, num levantamento para a FAS, em situação de rua que tentam apenas sobreviver. E aí na matéria do Jornal Pioneiro, muito bem elaborada, diz o seguinte, nessa semana: Há quem usa a droga, faça barulho, sujeira, incomode vizinho e há entre eles quem procura serviços oferecidos pela Fundação de Assistência Social. A entidade diz que tem 744. Eu fui ao Banrisul sacar e tem um senhor que está há quatro meses em situação de rua. Conversem com ele, está procurando emprego. Ele não é usuário de drogas, está procurando emprego e não tem onde ficar. Aí colegas... Eu já vou concluir, presidente: A inexistência de trabalho, agravada pela pandemia, e o rompimento de vínculos familiares, são apontados pelos especialistas como o principal motivo que leva as pessoas a morarem na rua, mas o uso de substâncias psicoativas e problemas de saúde mental acomete a maioria da população. Então é um problema de saúde mental e que as pessoas estão vivendo. E cadê à saúde para estar junto com essas pessoas? Nós não podemos tratar elas como um processo de expurgar da nossa sociedade, um processo de higienização. E aí colegas, a gente está encontrando, vereador Renato Oliveira, e eu já estou concluindo, presidente, que esse é um tema que a gente precisa ter um olhar especial, nós tivemos um período recente da nossa cidade que foram fechados dois abrigos, albergues e muitos vivem em situação de rua, vereador Velocino Uez, porque eles não podem levar os cachorrinhos deles. Então, aquele que o senhor citou, que ele fica pedindo dinheiro com cachorro, ele não pode ir para o albergue porque o cachorro não pode ir junto. Então, eu peço, eu faço um apelo a todos que olhem com outros olhos essas pessoas que buscam sobreviver, porque no Brasil hoje, e são dados de 2012 a 2022, houve um aumento de 211% da situação de pessoas em rua. 206 mil pessoas em situação de rua. Sete, a cada dez, população negra. Para concluir, fiz um voto de congratulações ao Guilherme Augusto Zatti Pulita. Parabéns, Guilherme! Essa tua matéria está mais atual como nunca. E faço uma recomendação aos colegas vereadores da leitura desse livro: A Filha do Reverendo. Quem puder fazer essa leitura, fala sobre o diagnóstico das pessoas em situação de rua no século passado, na década de 30. Obrigado.